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Sheik no São Paulo: melhor que

Sheik no São Paulo: melhor que Kaká, cobiçado por Zico e até lateral-direito.

Publicada em 17 de Fevereiro de 2015 �s 15h40


 O atacante Emerson é dentro de campo um resumo do que viveu em quase 20 anos de carreira. Aprendeu desde cedo que não existe apenas um caminho ou uma chance. Nasceu Marcio, virou Emerson para conseguir ser jogador. Vascaíno na infância, fez juras de amor ao Flamengo. Nesta quarta-feira, terá mais um exemplo disso. Idolatrado no Corinthians, ele será a principal arma do Timão no primeiro clássico contra o São Paulo na história da Taça Libertadores. Sem o Tricolor, Sheik, talvez, não existisse.
O São Paulo apareceu em um momento determinante da vida do jogador. Com 18 anos, já não acreditava que pudesse vingar no futebol e via as portas se fecharem. Foi então que Carmem Lúcia, mãe dele, decidiu em 1996 dar uma cartada final para que o sonho do filho e da família se realizasse. Marcio Passos de Albuquerque, nascido em 6 de dezembro de 1978, virou Marcio Emerson Passos, registrado em 6 de setembro de 1981.
- Na verdade, a minha ida pra lá (São Paulo) já foi com o documento falsificado. Sabe, aquelas pessoas que aparecem na sua vida com intuito de ajudar... Mas que fique claro: nós sabíamos. Não estou dando uma de santo, não - afirmou Emerson, em entrevista ao Esporte Espetacular que foi ao ar em julho de 2013.
Carmem Lúcia afirma jamais se arrependeu de ter providenciado a certidão de nascimento falsa.
- Ele chegou um dia com os olhos cheios de lágrima e disse: "Poxa, perdi minha oportunidade porque não tenho mais idade". Aí, eu fui e fiz a segunda certidão. Não me arrependo. Eu me arrependeria se tivesse deixado o meu filho na rua - disse, também ao Esporte Espetacular.
Com três anos a menos na certidão de nascimento, o garoto viu a carreira decolar. Levado ao São Paulo pelo ex-lateral-direito Cláudio Guadagno, foi rapidamente aceito pelo clube após passar pela avaliação de Milton Cruz, ex-técnico da equipe sub-20 e hoje auxiliar de Muricy Ramalho no time profissional. Em clara vantagem física e técnica sobre os outros meninos, virou uma estrela das categorias de base do Tricolor.
No fim de tudo, ganhamos mais um grande jogador para o país. Foi o “gato” do bem"
Pita, técnico de Emerson na base do Tricolor
– Ele sempre gostou de aparecer em jogos decisivos, de fazer gols importantes. Era um jogador diferente – afirmou Pita, craque do São Paulo nos anos 80 e treinador de Emerson nas divisões inferiores do clube.
O ótimo futebol chamou a atenção também da diretoria. Emerson era visto como uma joia pela cúpula do clube, alguém que traria milhões de dólares aos cofres em pouco tempo. A expectativa era tanta que o colocava acima até mesmo de Kaká na projeção feita pela direção sobre quem vingaria no futebol.
– O Emerson se destacava muito mais que o Kaká. Claro, hoje, sabemos que aquilo acontecia também pela idade. O Kaká sempre foi um craque, mas não tinha a força do Emerson. Ele fazia toda a diferença na base, pegava a bola no meio de campo e parava dentro do gol. Era impressionante – recordou Pita.
O sucesso, porém, gerou muita desconfiança entre os próprios companheiros de base. Apelidado de “Carioca”, Emerson deixava os outros meninos perplexos com tanta habilidade e capacidade de improviso.
– Um ano a mais ou a menos na base faz diferença. Ele era muito bom jogador e, com essa mudança (de idade), ficou ainda melhor. Todo mundo brincava com ele por causa disso. Ele parecia ser muito mais experiente do que todos nós – disse um ex-companheiro que pediu para não ser identificado.

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Os deslizes fora de campo, comuns na carreira do jogador, começaram lá atrás. Se Tite fez "vistas grossas" para inúmeros atrasos a treinamentos no CT Joaquim Grava, Pita fez o mesmo quando o atacante não passava de apenas uma promessa. Mesmo com as falhas, seguia em alta com os companheiros, como agora.
- Nós jogávamos no sábado de manhã e avisávamos que a reapresentação era na segunda. O Emerson chegava na quinta. Nós tentávamos explicar que não poderia ser daquele jeito. Mas ele era muito querido pela molecada. Eles mesmos pediam para colocá-lo no time e aí fazia dois, três gols... – relembrou o ex-treinador
Todo o sucesso como o provável sucessor de Denilson levou preocupação à diretoria. O São Paulo desconfiava que Emerson havia falsificado os documentos para diminuir a idade, mas não conseguiu comprovar o “gato”. No dia 26 de setembro de 1998, aos 17 anos, ele estreou pelo time profissional ao entrar no lugar do centroavante Dodô no empate por 0 a 0 contra o Flamengo, no Morumbi, pelo Campeonato Brasileiro.
As chances voltaram a aparecer no ano seguinte, já com Paulo César Carpegiani no comando da equipe. Depois de um treino dos juniores no CT da Barra Funda, o treinador decidiu promovê-lo de vez ao grupo principal. Mas com um detalhe: para atuar como lateral-direito, função na qual nunca conseguiu se adaptar.
Como atacante, marcou dois gols pelo Tricolor: um na goleada por 5 a 1 sobre o Atlético-MG, no Morumbi, em 25 de julho de 1999 (veja vídeo abaixo), e outro na derrota por 3 a 2 para o Santos, na Vila Belmiro, três dias depois.

A desconfiança do São Paulo com a idade de Emerson aumentou logo em seguida. O clube perdeu os três pontos de uma vitória sobre o Botafogo depois que ficou comprovada a falsificação nos documentos do também atacante Sandro Hiroshi. Com o temor de receber uma outra punição, o Tricolor decidiu negociar Emerson com o Consadole Sapporo, do Japão, mesmo sem ter a certeza da falsificação nos documentos.
Emerson chegou ao Oriente como desconhecido, mas rapidamente virou um dos destaques do futebol no país. Tanto que entrou na mira de ninguém menos que Zico, interessado em levá-lo para o Kashima Antlers. No entanto, o São Paulo já havia vendido os direitos dele e as conversas não avançaram – Sheik atuou depois pelo Kawasaki Frontale e Urawa Red Diamonds.

Emerson se despediu do São Paulo com 19 jogos e dois gols marcados (sete vitórias, três empates e nove derrotas). O número, porém, poderia ter sido maior. O crime de falsidade ideológica só foi descoberto em 2006, quando o jogador ainda não era famoso. Ele tentava embarcar no Rio de Janeiro para o Qatar, onde jogou entre 2005 e 2009, quando foi detido pela Polícia Federal. A princípio, o atacante foi condenado a três anos e nove meses de prisão, mas a pena acabou convertida em multa e prestação de serviços comunitários.
Em 2010, chegou a visitar os vestiários do Tricolor no Morumbi após receber o aval do presidente Juvenal Juvêncio para ser contratado. Acabou no Fluminense, convencido pelos milhões de reais investidos pela antiga parceira do clube.
Aos 36 anos (de verdade), Emerson vai reencontrar o clube que lhe deu aquela que poderia ser sua última chance no futebol. Quase 20 anos depois de praticamente salvar a carreira de um dos jogadores mais polêmicos do país, o São Paulo tentará pará-lo nesta quarta-feira.
– A idade adulterada não dizia nada. Você colocava o Emerson no juvenil, no júnior ou no profissional e ele sempre desequilibrava. No fim de tudo, ganhamos mais um grande jogador para o país. Foi o “gato” do bem – resumiu Pita.
Tags: Sheik no São Paulo: - O atacante Emerson

Fonte: globo �|� Publicado por: Da Redação
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