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Por M?rcio Chaer
Homenagens post mortem, em geral, s?o sombrias e, n?o raro, artificiais e burocr?ticas. Dificilmente captam a complexidade da exist?ncia que se pretende reverenciar. No dia 20 de novembro passado, morreu, aos 79 anos, o advogado M?rcio Thomaz Bastos. Para celebrar a carreira e a vida do grande brasileiro, este site convidou tr?s dos muitos amigos de M?rcio n?o s? para exortar, mas para deixar registrada a dimens?o humana e profissional desse s?mbolo da melhor face da advocacia brasileira.
Arnaldo Malheiros Filho, S?nia R?o e Manuel Alceu Affonso Ferreira lembraram boas hist?rias da sua conviv?ncia com o colega criminalista. Sem esconder a emo??o e o inconformismo pela perda do amigo, eles falam das caracter?sticas que tornaram M?rcio Thomaz Bastos um modelo de profissional a ser seguido. Principalmente pela toler?ncia e paci?ncia.
Analisam a transi??o da advocacia criminal da pessoa f?sica para a pessoa jur?dica nos ?ltimos anos e enaltecem a capacidade do ex-ministro da Justi?a e ex-presidente da OAB de trabalhar em equipe e apoiar novos talentos.
Leia a primeira parte da entrevista, com os principais trechos da conversa:
M?rcio Chaer — Como era sua conviv?ncia com M?rcio Thomaz Bastos?
Manuel Alceu — Eu tinha com o M?rcio uma conviv?ncia muito gostosa, porque ele era um dos poucos progressistas que ouvia minhas teses udenistas conservadoras sem me dar um soco. Foi essa conviv?ncia de contr?rios, que ? um neg?cio bacana de se fazer. E essa conviv?ncia, o Arnaldo lembra disso, come?ou em 1983, um almo?o que t?nhamos todas as sextas-feiras no Ca?d’Oro. Era um almo?o fiscalizado pelos outros comensais do restaurante, que era, enfim, s? big shots. Ent?o, tinha o Walter Moreira Salles, o Antonio Erm?rio, o ma?tre ?tico passeando por ali, que era uma figura referencial. Est? na ativa at? hoje. E a? era o M?rio S?rgio Duarte Garcia, o M?rcio, o Michel Temer, o Cid Vieira de Souza, o Bigi, enfim, v?rios advogados que j? tinham alguma express?o. Eu estava ali de peru. O M?rcio era um progressista que conversava com um conservador sem fazer cara de pouco caso, o que n?o ? comum.
Arnaldo Malheiros — Eu acho que voc? colocou bem. Ele era um progressista. N?o era, necessariamente, um esquerdista. Era progressista.
Manuel Alceu — At? pela pr?tica da vida, ele n?o era um esquerdista, n?o era mesmo. Ele era um homem refinado em tudo. Era um aristocrata no comportamento. E isso me atra?a muito. Toda vez que eu olhava para o M?rcio eu o via em um t?lburi com um cara atr?s, um criado de libr? trazendo um chicote. Eu acho que ele era mesmo um aristocrata.
S?nia R?o — Ele n?o se alterava nunca, era uma coisa impressionante.
Arnaldo Malheiros — Quando morreu o Valdir Trancoso Peres, descobriram um v?deo gravado de uma entrevista dele na televis?o e um dos entrevistadores era o M?rcio. Coisa dos anos 1970. E a S?nia dizia assim: “M?rcio, como voc? parecia cafajeste. O ?culos, o cabelo, a gravata...”
S?nia R?o — Mas era s? na apar?ncia.
Manuel Alceu — Agora, me contaram uma hist?ria que eu nunca presenciei: M?rcio era antes de tudo um anticorintiano. Ele era s?o-paulino e o celular tocava o hino do S?o Paulo. Celular esse que ele n?o mudava, segundo uma vez me contou, porque o Paulo Lacerda disse a ele que a melhor forma de ser grampeado era trocar de celular toda hora.
S?nia R?o — Eu diria que ele tamb?m era muito ruim de bot?o. Uma vez a gente estava com um gravador, normal, gravador daqueles antigos, eu e o M?rcio na sala. Era uma coisa secreta, a gente n?o conseguiu ligar. Era s? dar o Rec, n?o era nada complexo. Mas n?o conseguimos... (risos)
M?rcio Chaer — O escrit?rio que voc?s estavam era na Liberdade? E o Paulo Jos? da Costa, era do escrit?rio?
S?nia R?o — Era. O Paulo Jos? da Costa era dono do im?vel e vendeu para o M?rcio.
Manuel Alceu — Agora, voc? acha que o M?rcio era munheca?
S?nia R?o — Ele falava, e eu acho que ele tinha raz?o, que ele com dinheiro era justo. N?o era nem perdul?rio nem p?o duro.
Manuel Alceu — ?, S?nia, eu acho que era justo, porque n?s temos um amigo em comum, muito amigo dele tamb?m, o Fernando Menezes. Eles andavam ?s 9h da manh? e, no Pinheiros, juntos, faziam uma caminhada l?. Depois comiam uma banana, tomavam um copo de ?gua e um caf? e pagavam em dias alternados. Cada um pagava um dia. E houve um dia em que o M?rcio encasquetou que ele ? que tinha pago no dia anterior e n?o o Fernando, e tiveram uma discuss?o monumental sobre quem pagaria.
S?nia R?o — Cabe na defini??o dele de que ele era absolutamente justo em rela??o a dinheiro.
Arnaldo Malheiros — O M?rcio tamb?m sempre foi hipocondr?aco. Ele mesmo dizia que sempre ia ? farm?cia para perguntar as novidades e na semana seguinte passava a sentir os sintomas que aqueles rem?dios curavam.
S?nia R?o — Mas ele gostava mesmo de fazer exames. Como gostava de fazer exames. Se tivesse que fazer jejum antes, beber antes, comer antes, tudo que tivesse que fazer antes de prepara??o ele achava o m?ximo. Pedia para fazer. Na verdade ele nunca estava doente, ele estava sempre muito bem. O M?rcio fazendo quimioterapia, e a gente tratava como se nada estivesse acontecendo. N?o ? Arnaldo?
Arnaldo Malheiros — O Riad (Naim Younes, cirurgi?o oncologista) operou o M?rcio do pulm?o e dizia que ele foi salvo pela hipocondria. Como ele fazia dois check-ups completos por ano ele pegou o c?ncer no pulm?o em um est?gio embrion?rio, inicial. E a? o Riad tirou meio pulm?o dele, mandou para o anatomopatol?gico voltou e falou assim: “Caso encerrado.” A? o M?rcio falou: “Mas n?o preciso fazer qu?mio?” A? me contou e falou: “Vou pedir uma segunda opini?o.” Eu falei: “M?rcio, segunda opini?o ? quando o m?dico fala coisa ruim. Quando o m?dico fala coisa boa, basta.” A?, imagina. O Ricardo Tepedino conta que o pai dele era m?dico no interior e uma vez a m?e levou uma crian?a que tomou um tombo, fez um galo, n?o abriu, nem saiu sangue. E ele receitou alguma coisa para o menino e ela falou: “Mas n?o precisa tomar antitet?nica?” A? diz que o pai dele respondeu: “Precisa porque voc? perguntou.” Ent?o, foi isso: ele foi perguntar.
Manuel Alceu — Voc?s n?o acham que o M?rcio tinha muito de ir?nico? Ele me convidou para fazer parte do j?ri do Innovare, onde eu continuo at? hoje. A primeira reuni?o foi no Copacabana Palace. Bons tempos, o Arnaldo ? meu companheiro l?. O M?rcio conta para o Roberto Irineu Marinho, presidente das organiza?es Globo, que eu era um f? de novela, que n?o perdia uma novela. E eu n?o tenho nem ideia do que seja uma novela. A? o Roberto Marinho perguntou: “Qual ? a novela que o senhor mais gosta?” Eu n?o tinha a menor ideia, mas n?o queria dizer tamb?m para n?o deixar o M?rcio sem gra?a. A? eu falei: essa que passa mais ou menos no hor?rio do jantar. E ele era isso, era ir?nico ao extremo. E ele ficava com aquela cara, olhando, e l? dentro ele gozava a desgra?a alheia.
Arnaldo Malheiros — Uma vez um promotor pediu a pris?o preventiva de um cliente meu e de um cliente do M?rcio. O juiz, um incauto, decretou a pris?o dizendo que o pedido vinha amparado em mais de duas mil p?ginas de documentos, portanto os acusados tinham de ser presos. Nessas mais de duas mil p?ginas havia extratos banc?rios de investigados em outros casos. O cara usou para fazer volume e enganar o juiz. Mesmo assim perdemos o Habeas Corpus aqui por 2 a 1 e fomos para o STJ. E nessa hist?ria toda os caras ficaram foragidos por tr?s ou quatro meses. O meu cliente, dizia a fam?lia, j? estava pensando seriamente em se entregar, porque ele dizia que n?o aguentava mais aquela vida. Mas no dia de julgar no STJ n?s sa?mos do hotel, o M?rcio, meu ent?o s?cio Ricardo Camargo Lima, uma assessora que era o bra?o direito do meu cliente e eu. Entramos no t?xi, d? uns 10 minutos at? o STJ, e a? o M?rcio vira para mim e fala assim: “Arnaldo, como ? que vamos fazer?” A? eu falei: “Nem pensei.” E ele disse: “Estava pensando no seguinte, eu falo antes sobre a, b e c, a? depois voc? fala d, f e g.” Eu falei: “N?o. Acho que est? ao contr?rio. Eu devia falar antes sobre os outros aspectos, depois voc? fala desses e a? voc? faz o grand finale.” Nessa altura a assessora do meu cliente desaba em l?grimas. “Os caras est?o indo para o Tribunal e n?o combinaram, n?o sabem o que v?o dizer, nem em que ordem.” Ganhamos.
S?nia R?o — Nessa ?poca, durante muito tempo, o M?rcio e o Arnaldo ficavam horas falando em c?digos e era impressionante como dava certo. E eu falava: “Voc?s n?o combinam antes?” Eles falavam por telefone horas e horas. Esse caso voc?s falaram muito, tinha muito personagem em c?digo. Nessa ?poca mais ou menos o M?rcio ligou na minha casa e falou: “S?nia, sabe o namorado da Julieta?” Eu falei: “Namorado da Julieta?” Bom. Era o Romeu Tuma. Obviamente que eu n?o acertei nunca. Eu falei: “Eu n?o sou o Arnaldo, eu n?o fico captando assim”.
Arnaldo Malheiros — A gente brincava. Teve um esc?ndalo que tinha um grampo do Corinthians comprando o juiz. O presidente era aquele Dualibi e aparece na conversa com aquelas letras que a Globo p?e. “Quer dizer que o cara quer um-zero-zero?” A? o M?rcio dizia: “Grande c?digo, hein! Ningu?m sacou nada. Um-zero-zero”.
Chaer — Mas o c?digo que voc?s tinham era improvisado ou j? era pr?-combinado?
Arnaldo Malheiros — O neg?cio ? o seguinte: o M?rcio teve um cliente com quem a rela??o se desgastou e depois ele passou para mim, eu advoguei um bom tempo. Esse cliente era cheio de manias. Uma delas era ter c?digo pra tudo.
S?nia R?o — Porque n?o tinha ningu?m grampeado de verdade.
Arnaldo Malheiros — Esse cliente teve um caso que envolvia tamb?m um colega de turma meu que era procurador da Rep?blica. Uma vez ele vai a uma reuni?o no meu escrit?rio e chega, ?s 11h da manh?, de abrigo esportivo, todo molhado de suor e p?e uma mochila de pano em cima da mesa. Aquela mochila se desmilingue e v?-se claramente nela um rev?lver. A? ele viu que todo mundo percebeu e falou: “Eu vim correndo pela ilha da Avenida Sumar? e hoje em dia voc? n?o sabe o que vai encontrar na rua.” A partir da?, para esse cliente que tamb?m estava na reuni?o, ele passou a ser o “38”.
Arnaldo Malheiros — Um dia liguei para ele e falei assim: “M?rcio, o Ricardo, que era meu s?cio, foi para Bras?lia com a fulana — uma mo?a muito bonita que encantava o M?rcio —, s? os dois.” Ele falou: “S? os dois?” Ele falou ainda: “Voc? sabe que a especula??o sobre as atividades er?ticas alheias ? por si s? um exerc?cio er?tico, portanto, a verdade ? o que menos importa. Ent?o, diz para o Ricardo que eu quero saber todos os detalhes ainda que n?o sejam verdadeiros”.
M?rcio Chaer — Onde voc? conheceu o M?rcio?
Manuel Alceu — Eu conheci o M?rcio no Conselho da Ordem e depois passamos alguns epis?dios juntos. Era gest?o do Cid Vieira de Souza. E houve um epis?dio legal na Ordem que era a disputa entre o Sep?lveda Pertence e o Bernardo Cabral para a presid?ncia da Ordem. E houve ent?o um debate, ideia do M?rcio, mas p?ssima ideia, porque n?s ?ramos partid?rios do Pertence. E a? convidamos os dois para um debate aqui. Evidentemente, o Pertence deu de 35 a 0 no Cabral. N?o podia ser diferente. Acontece que no final do debate, meia-noite e meia, o Pertence vai para o Hotel Othon, na Libero Badar?, pra?a do Patriarca, e foi l? sozinho, ainda que tomando algum drink, mas ficou sozinho. O Bernardo Cabral convidou deus e o mundo para jantar no Rodeio, que se manteve aberto. Adivinha quem ganhou a elei??o? Porque levava o voto de S?o Paulo. Quer dizer, n?s perdemos o voto justamente por ter promovido o debate.
M?rcio Chaer — Ironias da pol?tica...
Manuel Alceu — Uma coisa que eu tenho muito interesse, eu tenho na cabe?a que a principal heran?a do M?rcio, heran?a intelectual, profissional, etc. e tal, ? a responsabilidade pelo surgimento de uma nova gera??o de criminalistas. Ent?o, sei l?, eu vejo voc?s dois nessa gera??o nova, vejo o Toron, que surgiu do escrit?rio dele, trabalhando com ele. N?o ? isso? Quem mais, de criminalista?
S?nia R?o — Le?nidas Scholz, Augusto Botelho, a Dora Cavalcanti, Luiz Fernando Pacheco....
M?rcio Chaer — O Juca (Jos? Lu?s de Oliveira Lima), a Ma?ra Salomi...
Arnaldo Malheiros — Joyce Roysen.
M?rcio Chaer — Quando come?aram a trabalhar com ele?
S?nia R?o — Eu comecei em setembro de 90. Eu j? era advogada, trabalhava com o Toron antes. No mesmo pr?dio da Av. Liberdade.
Arnaldo Malheiros — A S?nia e eu n?o somos crias do M?rcio.
S?nia R?o — Ele ? uma pessoa que acho que nos tocou, profissionalmente. Estamos falando da vida de um monte de gente que foi tocada de v?rias formas e em v?rios momentos. Voc? v? o Celso Vilardi, um grande amigo do M?rcio hoje em dia e n?o era antes. Mas ficou.
Arnaldo Malheiros — Ali?s, fui eu que fiz essa aproxima??o.
S?nia R?o — N?s dois, n?o ?? O Juca tamb?m estava pr?ximo do M?rcio.
M?rcio Chaer — Isso ? p?s-mensal?o?
S?nia R?o — P?s-minist?rio. N?o ??
Arnaldo Malheiros — O M?rcio gostava, e muito, do Celso. Eles ficaram muito amigos.
M?rcio Chaer — Ele admirava o Pierpaolo Bottini.
S?nia R?o — O Pier conheceu o M?rcio no Minist?rio. E o M?rcio gostava muito do Pier.
Arnaldo Malheiros — Gostava. E era pra gostar mesmo.
S?nia R?o — O S?rgio Renault tamb?m era bem pr?ximo do MTB
Arnaldo Malheiros — Ele tamb?m criticava, gostava de espalhar uma frase do Elio Gaspari, com quem ele almo?ava regularmente e que quando um figur?o contratou advogado, diz que o Elio falou no almo?o: “Eu n?o entendi. O cara contratou o Faust?o para advogar pra ele.” O M?rcio adorava contar essa hist?ria.
Manuel Alceu — O M?rcio me contava uma hist?ria, que n?o sei se ? verdadeira ou n?o, que envolvia o Saulo Ramos e o Evandro Lins e Silva. O Evandro dizia que o Saulo, que Deus o tenha, n?o tinha curr?culo, tinha folha de antecedentes. Mas eu acho que o M?rcio tinha essa condi??o, esse cheiro do que era bom e do que n?o era bom, eu acho que ele sabia fazer essa separa??o. Mas, ?s vezes, para meu espanto, ele convivia com aquilo que para mim n?o era bom.
S?nia R?o — Extremamente generoso, relevava coisas que a gente poderia n?o relevar.
Arnaldo Malheiros — Mais do que a generosidade. Uma vez eu critiquei um colega com quem ele estava se relacionando e ele falou assim: “Olha, Arnaldo, o problema ? o seguinte, o mundo n?o ? feito s? de gente boa, a gente precisa conviver com gente ruim, faz parte”.
M?rcio Chaer — Mas esse era o lado pol?tico dele?
Arnaldo Malheiros — N?o sei se era pol?tico. Era profissional. N?o tinha nada de pol?tico. Era profissional.
S?nia R?o — Ele n?o era muito pol?tico. Imagina o M?rcio brigando? Eu nunca vi. Eu nunca vi o M?rcio bravo. Juro. Eu j? o vi indignado com algumas situa?es, mas brigar pessoalmente com algu?m, nunca. Acho que ele, al?m de ser um ser pol?tico com uma diplomacia muito acentuada, era uma pessoa extremamente generosa. Tinha um feeling desgra?ado. Acho que uma das maiores caracter?sticas dele como advogado era esse feeling infal?vel.
Arnaldo Malheiros — O M?rcio nunca foi um estudioso de Direito Penal. Mas ele era esse cara que tinha um feeling tremendo, tinha um racioc?nio estrat?gico absolutamente invej?vel e tinha paix?o, tinha tes?o. Era um cara que tocava no ponto.
S?nia R?o — E tinha o que voc? falou, uma coisa que eu acho que ele tinha fortemente, de acolhimento ao cliente.
Manuel Alceu — Isso que o Arnaldo est? falando me faz lembrar o seguinte, eu tive um sogro, j? morreu, Jos? Frederico, ele dizia que existiam juristas maravilhosos que nunca tinham lido os tratados do Manzini, mas que combinavam texto e testa, que tinham razoabilidade para combinar essas duas coisas. Eu acho que o M?rcio era isso, ele combinava texto e testa. N?o ??
Arnaldo Malheiros — Muito inteligente, realmente uma intelig?ncia invulgar.
S?nia R?o — Ele ouvia as pessoas, ouvia os clientes, ouvia os outros.
M?rcio Chaer — O que eu estou imaginando ? o seguinte: M?rcio foi o respons?vel por v?rias das nomea?es para o Supremo. Alguma vez depois de ter sa?do do Minist?rio se aproveitou dessa proximidade? Eu tenho a impress?o que n?o. Que ? um ponto a favor dele. Um ponto imenso.
Arnaldo Malheiros — Ele dizia o seguinte: “Eu procurei indicar pessoas de bem. E a pessoas de bem voc? n?o vem cobrar a indica??o porque n?o ser? bem recebido. Ent?o, se n?o fosse por honestidade, seria por malandragem. Eu n?o vou fazer isso”.
M?rica Chaer — Existia um jeito M?rcio Thomaz Bastos de ser. Havia advogados que estavam a milhares de anos luz do perfil ideol?gico do M?rcio, mas tentaram recriar o itiner?rio do M?rcio na carreira deles, no discurso. ? claro que voc? n?o copia uma pessoa inteira, mas pode copiar um aspecto. Tem isso?
Arnaldo Malheiros — Sim. Tem muito. Est? cheio disso. Est? muito cheio. O cara viu que ? um caminho que deu certo. Isso d? certo uma vez, quem viu primeiro chega l?.
S?nia R?o — Acho dif?cil identificar isso na parte ideol?gica, porque o M?rcio tamb?m se relacionava com todos os perfis ideol?gicos.
Arnaldo Malheiros — N?o ? quest?o de se relacionar, o que o Chaer est? levantando ? o seguinte: o cara tentou pegar o v?cuo dele.
S?nia R?o — Sim. Mas eu n?o pegaria pelo vi?s ideol?gico. Tem v?rias facetas disso. Primeiro, eu acho que o M?rcio ? um desses. N?o ? o ?nico, com certeza, o Arnaldo eu acho que ? tamb?m, um dos representantes da glamouriza??o do Direito Penal. Mas tem uma transi??o importante para registrar. Quando comecei a trabalhar, o Arnaldo tamb?m, a gente pegava roubo, furto, estelionato, homic?dio. Tinha um grande empres?rio de vez em quando, mas o resto era tudo normal. Advocacia normal.
Arnaldo Malheiros — O M?rcio falava: “N?s ?ramos muito mais pobres.” E ?ramos mesmo. Era uma ?poca que restaurante de luxo para gente era o Gigetto.
S?nia R?o — A gente advogava para pessoa f?sica naquela ?poca. Eu, o M?rcio, n?s todos. Ningu?m queria ser criminalista, porque ningu?m queria ir em delegacia. Quando veio essa glamouriza??o, porque eu acho que o M?rcio ? uma pessoa que incorpora, at? por ele ser um lorde mesmo e por ele ter pegado e atuado nos grandes casos, se relacionado com celebridades, teve essa mudan?a que aumentou em n?vel e n?mero a legi?o dos criminalistas.
M?rcio Chaer — Ele ficou famoso como estrategista e passou a ser muito procurado por esse talento. Voc?s poderiam lembrar exemplos de estrat?gia?
Arnaldo Malheiros — S?o dif?ceis as que se podem contar. Mas eu vou dizer uma coisa, eu estava em uma audi?ncia na justi?a federal com o juiz Sinval Antunes. Um dos r?us tinha como advogado um amigo seu que tinha acabado de se reformar como coronel do Ex?rcito e nunca tinha advogado na vida. Os outros advogados eram, para meu orgulho de estar no grupo, o Paulo S?rgio Leite Fernandes e o Tales Castelo Branco. E n?s est?vamos, sexta-feira pr?-santa, quase sete horas da noite, em um processo que tinha r?us presos, era um desses esc?ndalos de previd?ncia social. A? chega um grupo para falar com o juiz, o cerca e fica ali cochichando. A? uma hora o Sinval falou assim: “Eu n?o vou no meio de uma audi?ncia decretar a pris?o preventiva de um homem. Nem pensem nisso. Se for o caso de decretar a pris?o preventiva eu vou decretar, mas eu estou em uma audi?ncia, respeitem o meu trabalho”. Eram procuradores da Rep?blica, um vindo especialmente de Bras?lia, e o que eles queriam era a preventiva de um empres?rio num caso midi?tico. O fato ? que na sexta-feira, no fim do expediente, n?o saiu a preventiva. O M?rcio chamou o cliente em casa e falou assim: “Voc? ? um risk taker, n??” A resposta: “Sim. Eu sou um banqueiro, um tomador de riscos”. O M?rcio orientou: “Voc? tem duas op?es, uma ? ficar na sua e esperar o que esse juiz tem que decidir. A outra ? o seguinte: eu levo voc? amanh? na casa do juiz. O risco ? o juiz falar: ‘Espera um pouco que eu vou mandar fazer um caf?’, liga para a Pol?cia Federal, manda te prender e recolher, ou nunca mais vai te prender. Voc? que escolhe”. Ele levou o cliente l? e o juiz botou no despacho, indeferindo o pedido de pris?o preventiva, “o r?u esteve na minha casa mostrando que ? uma pessoa que n?o est? fugindo da Justi?a”. Brilhante! Genial!
Manuel Alceu — Eu n?o sei das estrat?gias nos casos que ele defendia, mas eu sei de uma estrat?gia. Como o Arnaldo e a S?nia, eu tive o privil?gio de defender umas quest?es civis, e uma das quest?es era uma a??o de danos morais que ele moveu contra o Partido Progressista Brasileiro. Existe, PPB. PPB falando sobre a Coca-Cola disse que o M?rcio havia sido indicado para o Minist?rio da Justi?a pela Coca-Cola. Por qu?? Em pagamento pelo fato de impedir o aprofundamento das investiga?es da presen?a de coca?na na Coca-Cola. Isso dito em um programa partid?rio. E eu preocupado em como entrar com a a??o, que estrat?gia e tal. O M?rcio falou: “N?o tem estrat?gia nenhuma, voc? faz uma peti??o de duas p?ginas contando esse fato.” E realmente ganhamos a a??o e fomos at? o final.
S?nia R?o — Ele tinha um efeito calmante sobre os clientes que eu acho que era uma coisa important?ssima dentro da rela??o. As pessoas saiam da sala dele calmas. N?o era nada que ele dissesse, mas era uma coisa nele que acalmava. As pessoas sa?am ?s vezes como se tivessem sido absolvidas. ? um efeito que ele provocava, em mim tamb?m. Serenizava o ambiente.
Arnaldo Malheiros — Qualidade na qual ele tinha um ?mulo, que tinha essa mesma virtude, o Tales Castelo Branco. Eu tive um amigo que foi cliente do Tales em um caso de j?ri, e ele dizia: “O Tales ? um sedativo. Eu estou nervoso, vou no escrit?rio dele e durmo”. Ele passa um tranquilidade t?o grande. E o M?rcio era isso tamb?m.
S?nia R?o — E com a gente tamb?m. Para mim era importante, porque eu j? ficava com dor de est?mago. E o M?rcio era muito saud?vel, por isso n?o d? para entender e nem acreditar que ele morreu. No j?ri do Chico Mendes a gente ficou hospedado no convento das freiras. A cidade repleta de jornalistas do mundo todo e ele conseguia dormir bem, se cuidar.
Manuel Alceu — Voc? conheceu a Marina Silva l??
S?nia R?o — N?o. N?o conheci. Era engra?ado, porque tinha uns seguran?as para a gente, adolescentes, que a gente nunca sabia de que lado estavam, quem eram, ningu?m explicava nada, era muito louco. Eu sou totalmente perdida, n?o tenho senso de dire??o, e ele tamb?m n?o. E l? tinha s? uma rua, vinha a imprensa toda, tinha o convento e tinha o f?rum, n?o tinha mais para onde ir, todo dia que ele saia do plen?rio e virava para o lado errado e a? o pessoal da imprensa ia ajudar a acertar o rumo.
Manuel Alceu — Quantas horas durou esse j?ri a??
S?nia R?o — Dias. Alguns dias.
M?rcio Chaer — E s?o dias que o conselho fica incomunic?vel?
Arnaldo Malheiros — O conselho fica incomunic?vel.
Manuel Alceu — Mas eu queria saber, no lado pol?tico, o M?rcio era uma pessoa que agregava, sempre agregava. At? os udenistas como eu se sentiam acolhidos, atra?dos por ele.
S?nia R?o — O ACM, por exemplo, adorava o M?rcio e o M?rcio gostava muito dele. Ele foi cliente e amigo do M?rcio. Foi na posse do M?rcio no Minist?rio.
Manuel Alceu — Eu n?o sei se isso ? concomitante, mas quem estava escrevendo a biografia do ACM era o Fernando Morais. Depois se desentenderam em fun??o do genro do ACM, enfim, em raz?o de algumas brigas de fam?lia. Mas o M?rcio foi important?ssimo, porque fez mil refer?ncias boas ao Fernando Morais dizendo que o ACM estava entregando a biografia a quem merecia biografar. Voc? estava muito longe ainda dessa tese das biografias autorizadas. Isso ? o fim da picada. O M?rcio era agregador.
S?nia R?o — E ele era com os advogados tamb?m. M?rcio era muito jovem, eu nunca o vi como se fosse meu pai, ele para mim era quase da minha idade.
Arnaldo Malheiros — O Augusto s? chamava o M?rcio, para os colegas, de “o velho”.
S?nia R?o — E ele odiava, n?o ?? Porque podia chamar o M?rcio de qualquer coisa, menos falar que ele era velho. Ele tinha horror. E n?o era velho. No Minist?rio da Justi?a mesmo ele chamou um pessoal muito jovem e eles se davam muito bem.
Arnaldo Malheiros — O “jardim de inf?ncia” do M?rcio. Esse “jardim de inf?ncia” do M?rcio era um pessoal muito jovem e muito competente.
S?nia R?o — M?rcio nunca elogiava voc? na sua frente, tamb?m nunca criticava, dificilmente criticava. Mas a gente tinha um combinado entre os amigos que quando ele elogiasse algu?m a gente contava para esse algu?m. O Arnaldo foi uma das pessoas que eu mais lembrei quando soube da morte do M?rcio. Porque foi uma ?poca que a gente estava muito pr?ximo, trabalhando juntos nos casos. E toda hora voc?s almo?avam juntos. N?o ?, Arnaldo? E o M?rcio preocupado com o Arnaldo, porque o Arnaldo ? um desregrado, eu sou desregrada, e o M?rcio era todo certinho. Uma das coisas que eu acho muito impressionantes: ele era muito de bem com a vida e tinha muito prazer nas coisas. Al?m de ter muito prazer na advocacia, tamb?m apreciava vinhos, whisky, cinema, ele adorava o Philip Roth, o Rubem Fonseca, lia muito, o Almod?var.
Arnaldo Malheiros — Ele era muito antenado com tend?ncias culturais.
M?rcio Chaer — Fala um pouco mais dessa linha, ele gostava do Almod?var.
S?nia R?o — O Philip Roth para o M?rcio era um dos maiores escritores. Ele gostava muito de ler biografias de advogados americanos. Voc? podia falar qualquer absurdo com ele, n?o era uma pessoa que voc? ficava com cerim?nia de falar. N?o dava para ter uma coisa de temor reverencial com o M?rcio. Por mais que ele fosse chefe, e eu considero que ele foi meu chefe durante muitos anos, al?m de meu parceiro na advocacia, ele te deixava muito ? vontade. Ele falava: “Ouve o cliente, deixa falar o que aconteceu.” E ele fazia isso. Era um cara de esperar baixar a poeira, de n?o fazer movimentos bruscos, de ouvir as outras pessoas. Esse ? o M?rcio. ? sempre uma coisa de: “Est? no olho do furac?o, vai passar, eu j? vi isso milh?es de vezes. Voc? est? agora achando que sua vida acabou, mas sua vida n?o acabou. Daqui a pouco isso vai estar de outro jeito. A gente vai cuidar do processo. Deixa passar esse primeiro momento”. E com aquele efeito calmante que ele tinha. Porque ? muito importante voc? manter a pessoa com um pouco de cabe?a fria quando ela est? na primeira p?gina do jornal, achando que vai ser presa a qualquer momento.
Arnaldo Malheiros — Uma vez eu falei para ele uma frase do Giap, que foi o comandante do ex?rcito do Vietn? do Norte e derrotou os Estados Unidos da Am?rica, n?o ? pouca coisa, e o Giap uma vez falou o seguinte: “Quando voc? est? andando e o vento vem contra voc?, n?o adianta insistir, voc? vai quebrar. Mas nenhuma ventania ? para sempre. Ent?o, deita no ch?o, espera a ventania passar e depois voc? levanta e continua.” Eu falei isso para o M?rcio e o M?rcio achou genial. E eu falei: “M?rcio, ? isso que voc? pensa”.
M?rcio Chaer — Ele n?o recomendava movimentos bruscos em nenhuma situa??o?
S?nia — Nunca. Sempre esperar passar. Dormir sobre o processo era uma express?o que ele usava muito. “Amanh? a gente retoma, vamos dormir sobre esse assunto. Amanh? a gente pensa melhor.” E voc? via que ele ficava maturando as coisas.
Arnaldo Malheiros — Como bom hipocondr?aco ele lia tudo que era de assuntos m?dicos em geral e um dia leu a hist?ria de que o vinho tinto faz bem ? sa?de e, pior, depois leu um artigo que dizia o seguinte: a uva tinta que mais tem esse elemento qu?mico que faria bem ? sa?de ? a Cabernet Sauvignon plantada no Chile. A partir da? ele passou a quase s? tomar Cabernet Sauvignon Chileno. E eu ia muito com ele no Parigi. E um dia eu fui acho que com o Celso Vilardi e veio l? o sommelier para mim e falou assim: “O senhor quer um Cabernet Sauvignon?” Eu falei: “N?o. Quem gosta ? o M?rcio. Deixa eu aproveitar para beber outra coisa”.
S?nia R?o — Ele era todo comedido. Fazia dieta sempre, mas emagrecia dois quilos a mais para ter uma reserva t?cnica. Todo mundo se matando, engordando e ele tinha essa reserva t?cnica. Uma vez n?s est?vamos na Bahia, em um hotel em Salvador, e tinha que almo?ar muito r?pido. Tinha uma mesa de doces, de brigadeiro e tal. E a?, claro, estava o M?rcio, eu pedi junto com ele um peixe grelhado com palmito, sei l?, e eu s? olhando a mesa de doces. A? eu pensei que n?o ia dar tempo de comer sobremesa, fui l? me servir, comi e a? chegou o peixe. O M?rcio falou: “N?o acredito que voc? ainda vai comer o peixe depois da sobremesa”. Essa coisa dele de se cuidar t?o bem acho que ajudava na advocacia, porque ele dormia bem, comia bem. Nada abalava isso. Ele n?o ia para um j?ri detonado, acabado. No Chico Mendes, ele dormia cedo, acordava cedo, tomava caf? da manh?. Todo mundo ficaria super nervoso, e ele at? ficava nervoso. Citava o Valdir Troncoso Perez: “No dia que deixar de ficar nervoso antes de um j?ri ou sustenta??o oral, eu deixo de advogar”. O nervoso dele era adrenalina, do envolvimento total. Mas mesmo nesse estado ele transparecia uma calma absoluta e seguia sempre am?vel.
Arnaldo Malheiros — No ?ltimo dia dele eu ainda lembrei com ele a hist?ria das bananas no Supremo. Ele estava como sempre em regime e a gente come?ou o processo do mensal?o. Tinha uma companhia que fechou muito cedo, que se chamava Rural Airlines, que era o Banco Rural que providenciava o jatinho para o M?rcio e para o Jos? Carlos Dias. E a? iam os caronas. E ele j? no avi?o abria a pasta e tirava uma fruta que era parte do regime. A? no meio da tarde ele dizia assim: “Voc?, para comer fora do seu ambiente, seja casa ou escrit?rio, voc? tem que comer uma fruta. A fruta ideal ? a banana, porque ela ? seca, voc? n?o molha a m?o, voc? n?o precisa de faca. Com a m?o voc? descasca, voc? come e ? s? jogar a casca fora e pronto. O ?nico problema ? voc? ser visto e acharem que voc? est? querendo dizer alguma coisa...” Ent?o, ele se trancava na casinha para comer uma banana e jogava a casca no cesto de lixo.
M?rcio Chaer — A Monica Bergamo deu uma nota sobre isso. Porque ele comia no pr?prio Supremo. N?o ??
Arnaldo Malheiros — No pr?prio Supremo. Mas ele comia no banheiro e na casinha, n?o era nem onde tem a pia, era na portinha trancada. Ele comia a banana trancado.
M?rcio Chaer — Agora, pelo que voc?s dizem, tem uma dicotomia. Ele tinha uma apar?ncia de bon vivant, de uma pessoa muito tranquila, mas no ?ntimo ele era um guerreiro disciplinado, n?o ??
S?nia R?o — Muito disciplinado para tudo. Mas tamb?m era um bon vivant, porque ele gostava de sair, fazer as coisas. N?o era um cara s? voltado para o trabalho, ele adorava correr, ele adorava ir ? praia, adorava os netos, a filha, a mulher.
M?rcio Chaer — Agora, n?o era assim como o Malheiros de ficar indo para Paris o tempo todo.
Arnaldo Malheiros — N?o. Ele ia, mas o problema ? que a mulher dele tem um problema grave na coluna. Para ela uma viagem que exija ficar 12 horas em um avi?o ? invi?vel.
S?nia R?o — Mas eu n?o acho que ele adorasse viajar para fora. Eu acho que de uns anos para c?, at? por causa dos netos, eu acho que ele preferia ir para Iporanga, aonde as crian?as iam. Ele foi para Disney, o que eu fiquei impressionad?ssima, para levar os netos h? uns dois ou tr?s anos. A menina, Rafaela, nasceu quando ele estava indo para o Minist?rio e o menino, Diogo, nasceu quando ele estava voltando, quando ele estava saindo do Minist?rio.
M?rcio Chaer — Agora, em que momento ele cruza com o Lula, Arnaldo, voc? lembra?
S?nia R?o — Eu n?o sei, mas lembro que n?s advogamos para o Lula em uma quest?o.
M?rcio Chaer — Isso na Avenida Liberdade, em 1965, n?o ??
S?nia — Tudo foi na Liberdade. A gente s? saiu de l? depois de um tempo em que ele estava no Minist?rio, no finalzinho, na verdade. Eu lembro que o Lula falou alguma coisa de privatiza??o do governo Fernando Henrique, a? o Fernando Henrique entrou com uma queixa ou uma representa??o contra o Lula e n?s fizemos a defesa. N?o sei se foi antes disso, provavelmente foi, mas o que eu lembro mais do M?rcio ? o quanto ele levava a s?rio aquele governo paralelo do PT. Eu lembro dele saindo do escrit?rio para ir no governo paralelo, porque ele era o ministro da Justi?a do governo paralelo.
Arnaldo Malheiros — Ele talvez tenha sido um dos ?nicos que levou a s?rio o governo paralelo.
S?nia R?o — E ele sempre gostou muito do Lula, sempre, desde que ele se aproximou. Ele achava o Lula completamente brilhante. E nunca foi filiado ao partido.
Arnaldo Malheiros — N?o. Nunca foi de partido. E ele tinha uma rela??o ambivalente com o Lula. Admirava, claro, a intelig?ncia invulgar, que ele, como homem inteligente, sabia reconhecer. Ent?o, ele oscilava. ?s vezes elogiava, outros dias reclamava. No meio da CPI do mensal?o, o Del?bio Soares fez uma festa de anivers?rio no Buriti Alegre, onde o pai dele tem um s?tio, e saiu na capa do Estad?o uma foto que ele est? com esguicho de regar jardim molhando a pr?pria cara. E a? o Z? Carlos Dias, que ? tucano, falou assim: “O Lula quando viu essa foto falou assim: ‘Filho da puta, para o melhor ele n?o me chama’”. O M?rcio dava cambalhota de gargalhada com essa hist?ria. Ele achava a cara do Lula. Eu acho que ? uma rela??o ambivalente. Ele dizia: “Eu nunca vi o Lula decidindo nada ouvindo uma s? pessoa”. E contava: “Assunto jur?dico era eu, mas o Lula n?o fazia segredo, falava que ia ouvir outras pessoas”.
M?rcio Chaer — O processo de escolha de ministros do Lula...
Arnaldo Malheiros — Um interlocutor frequente era o Sigmaringa Seixas. Outro era o Nelson Jobim, de quem o Lula gostava tamb?m. Mas o Lula jogava aberto, n?o tem que fazer nada ?s escondidas de ningu?m. “Essa op??o ? ?tima. Voc? ? meu ministro, levo em considera??o. Mas eu quero ouvir o que os outros acham”.
M?rcio Chaer — Uma vez perguntamos ao Lula: como o senhor escolhe um ministro de tribunal? Ele falou: “Eu escuto muita gente, mas muita gente.” Havia uma l?gica, uma previsibilidade. Era poss?vel saber quem tinha chances de fato. Bastava captar o senso comum em torno do Lula.
Arnaldo Malheiros — Saiu um artigo lindo da Dora Kramer sobre o M?rcio na sexta-feira. Eu mandei um e-mail para ela dizendo que eu tinha ficado emocionado com o artigo de sexta-feira, que foi uma homenagem linda. Mas eu disse: “Tem duas coisas factuais que eu gostaria de contar, s? para voc? deixar no fundo da gaveta e usar um dia se quiser. Primeira ? a seguinte, o M?rcio n?o foi o ?nico assessor do Lula que o peitou de frente no caso Larry Rother. Ele contou com o auxilio important?ssimo de um cara chamado Ricardo Kotscho. Foram os dois. E eu sei dessa hist?ria pelos dois.