Piaui em Pauta

Em campanha para o STF, Luiz Fux procurou José Dirceu.

Publicada em 02 de Dezembro de 2012 às 15h52


?O ministro Luiz Fux, 59, diz que desde 1983, quando, aprovado em concurso, foi juiz de Niter?i (RJ), passou a sonhar com o dia em que se sentaria em uma das onze cadeiras do Supremo Tribunal Federal (STF).

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Quase trinta anos depois, em 2010, ele sa?a em campanha pelo Brasil para convencer o ent?o presidente Lula a indic?-lo ? corte.

Fux era ministro do STJ (Superior Tribunal de Justi?a), o pen?ltimo degrau na carreira da magistratura. "Estava nessa luta" para o STF desde 2004 --sempre que surgia uma vaga, ele se colocava. E acabava preterido. "Bati na trave tr?s vezes", diz.

AVAL

Naquele ?ltimo ano de governo Lula, era tudo ou nada.

Fux "grudou" em Delfim Netto. Pediu carta de apoio a Jo?o Pedro Stedile, do MST. Contou com a ajuda de Ant?nio Palocci. Pediu uma for?a ao governador do Rio, Sergio Cabral. Buscou empres?rios.

E se reuniu com Jos? Dirceu, o mais c?lebre r?u do mensal?o. "Eu fui a v?rias pessoas de SP, ? Fiesp. Numa dessas idas, algu?m me levou ao Z? Dirceu porque ele era influente no governo Lula."

O ministro diz n?o se lembrar quem era o "algu?m" que o apresentou ao petista.

Fux diz que, na ?poca, n?o achou incompat?vel levar curr?culo ao r?u de processo que ele poderia no futuro julgar. Apesar da superexposi??o de Dirceu na m?dia, afirma que nem se lembrou de sua condi??o de "mensaleiro".

"Eu confesso a voc? que naquele momento eu n?o me lembrei", diz o magistrado. "Porque a pessoa, at? ser julgada, ela ? inocente."

Conversaram uma s? vez, e por 15 minutos, segundo Fux. Conversaram mais de uma vez, segundo Dirceu.

A equipe do petista, em resposta a questionamento da Folha, afirmou por e-mail: "A assessoria de Jos? Dirceu confirma que o ex-ministro participou de encontros com Luiz Fux, sempre a pedido do ent?o ministro do STJ".

Foram reuni?es discretas e reservadas.

CURR?CULO

Para Dirceu, tamb?m era a hora do tudo ou nada.

Ele aguardava o julgamento do mensal?o. O ministro a ser indicado para o STF, nos estertores do governo Lula, poderia ser o voto chave da t?o sonhada absolvi??o.

A escolha era crucial.

Fux diz que, no encontro com Dirceu, nada disso foi tratado. Ele fez o seguinte relato ? Folha:

Luiz Fux - Eu levei o meu curr?culo e pedi que ele [Dirceu] levasse ao Lula. S? isso.

Folha - Ele n?o falou nada [do mensal?o]?

Ele falou da vida dele, que tava se sentindo... em outros processos a que respondia...

Tipo perseguido?

?, um perseguido e tal. E eu disse: "N?o, se isso o que voc? est? dizendo [que ? inocente] tem proced?ncia, voc? vai um dia se erguer". Uma palavra, assim, de conforto, que voc? fala para uma pessoa que est? se lamentando.

MATO NO PEITO

Dirceu e outros r?us tiveram entendimento diferente. Passaram a acreditar que Fux votaria com eles.

Uma express?o usual do ministro, "mato no peito", foi interpretada como promessa de que ele os absolveria.

Fux nega ter dado qualquer garantia aos mensaleiros.

Ele diz que, j? no governo Dilma Rousseff, no come?o de 2011, ainda em campanha para o STF (Lula acabou deixando a escolha para a sucessora), levou seu curr?culo ao ministro da Justi?a, Jos? Eduardo Cardozo. Na conversa, pode ter dito "mato no peito".

Folha - Cardozo n?o perguntou sobre o mensal?o?

N?o. Ele perguntou como era o meu perfil. Havia causas importantes no Supremo para desempatar: a Ficha Limpa, [a extradi??o de Cesare] Battisti. A? eu disse: "Bom, eu sou juiz de carreira, eu mato no peito". Em casos dif?ceis, juiz de carreira mata no peito porque tem experi?ncia.

Em 2010, ainda no governo Lula, quando a disputa para o STF atingia temperatura m?xima, Fux tamb?m teve encontros com Evanise Santos, mulher de Dirceu.

Em alguns deles estava o advogado Jackson Uch?a Vianna, do Rio, um dos melhores amigos do magistrado.

Evanise ? diretora do jornal "Brasil Econ?mico". Os dois combinaram entrevista "de cinco p?ginas" do ministro ? publica??o.

Evanise passou a torcer pela indica??o de Fux.

Em Bras?lia, outro r?u do mensal?o, o deputado Jo?o Paulo Cunha (PT-SP), articulava apoio para Fux na bancada do PT.

A movimenta??o ? at? hoje um tabu no partido. O deputado C?ndido Vacarezza (PT-SP) ? um dos poucos que falam do assunto.

Vacarezza - Quem primeiro me procurou foi o deputado Paulo Maluf. Eu era l?der do governo Lula. O Maluf estava defendendo a indica??o e me chamou no gabinete dele para apresentar o Luiz Fux. Tivemos uma conversa bastante positiva. Eu tinha inclina??o por outro candidato [ao STF]. Mas eu ouvi com aten??o e achei as teses dele interessantes.

Folha - E o senhor esteve tamb?m na casa do ministro Fux com Jo?o Paulo Cunha?

Eu confirmo. Jo?o Paulo me ligou dizendo que era um caf? da manh? muito importante e queria que eu fosse. Eu n?o te procurei para contar. Mas voc? tem a informa??o, n?o vou te tirar da not?cia.

O mensal?o foi abordado?

N?o vou confirmar nem vou negar as informa?es que voc? tem. Mas eu participei de uma reuni?o que me parecia fechada. Tinha um empres?rio, tinha o Jo?o Paulo. Sobre os assuntos discutidos, eu preferia n?o falar.

Fux confirma a reuni?o. Mas diz que ela ocorreu depois que ele j? tinha sido escolhido para o STF. Os petistas teriam ido cumpriment?-lo.

Na ?poca, Cunha presidia comiss?o na C?mara por onde tramitaria o novo C?digo de Processo Civil, que Fux ajudou a elaborar.

Sobre Maluf, diz o magistrado: "Eu nunca nem vi esse homem". Maluf, avisado do tema, disse que estava ocupado e n?o atendeu mais ?s chamadas da Folha. Ele ? r?u em tr?s processos no STF.

CHORO

No dia em que sites come?aram a noticiar que ele tinha sido indicado por Dilma para o STF, "vencendo" candidatos fortes como os ministros C?sar Asfor Rocha e Teori Zavascki, tamb?m do STJ, Fux sofreu, rezou, chorou.

Luiz Fux - A not?cia saiu tipo 11h. Mas eu n?o tinha sido comunicado de nada. E comecei a entrar numa sensa??o de que estavam me fritando. At? falei para o meu motorista: "Meu Deus do c?u, eu acho que essa eu perdi. N?o ? poss?vel". De repente, toca o telefone. Era o Jos? Eduardo Cardoso. A? eu, com aquela ansiedade, falei: "Bendita liga??o!". Ele pediu que eu fosse ao seu gabinete.

No Minist?rio da Justi?a, ficou na sala de espera.

Luiz Fux - A? eu passei meia hora rezando tudo o que eu sei de reza poss?vel e imagin?vel. Quando ele [Cardozo] abriu a porta, falou: "Voc? n?o vai me dar um abra?o? Voc? ? o pr?ximo ministro do Supremo Tribunal Federal". Foi a? que eu chorei. Extravasei.

De fevereiro de 2011, quando foi indicado, a agosto de 2012, quando come?ou o julgamento do mensal?o, Fux passou um per?odo tranquilo. Assim que o processo come?ou a ser votado, no entanto, o clima mudou.

Para surpresa dos r?us, em especial de Dirceu e Jo?o Paulo Cunha, ele foi implac?vel. Seguiu Joaquim Barbosa, relator do caso e considerado o mais rigoroso ministro do STF, em cada condena??o.

Foi o ?nico magistrado a fazer de seus votos um espelho dos votos de Barbosa. Divergiu dele s? uma vez.

Quanto mais Fux seguia Barbosa, mais o fato de ter se reunido com r?us antes do julgamento se espalhava no PT e na comunidade jur?dica.

Advogados de SP, Rio e Bras?lia passaram a comentar o fato com jornalistas.

A raiva dos condenados, e at? de Dilma, em rela??o a Fux chegou ?s p?ginas dos jornais, em forma de notas cifradas em colunas --inclusive da Folha.

Pelo menos seis ministros do STF j? ouviram falar do assunto. E comentaram com terceiros.

Fux passou a ficar incomodado. Conversou com Jos? Sarney, presidente do Senado. "Sei que a Dilma est? chateada comigo, mas eu n?o prometi nada." Ele confirma.

Na posse de Joaquim Barbosa, pouco antes de tocar guitarra, abordou o ex-deputado Sigmaringa Seixas, amigo pessoal de Lula. Cobrou dele o fato de estarem "espalhando" que prometera absolver os mensaleiros.

Ao perceber que a Folha presenciava a cena, puxou a rep?rter para um canto. "Querem me sacanear. O pau vai cantar!", disse. Questionado se daria declara?es oficiais, n?o respondeu.

Dias depois, um emiss?rio de Fux procurou a Folha para agendar uma entrevista.

RAIO X - LUIZ FUX, 59

Origem
Rio de Janeiro (RJ)

Fam?lia
Casado com Eliane Fux, tem dois filhos: Rodrigo e Marianna, ambos advogados

Forma??o
Bacharel em direito pela Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). Concluiu doutorado em processo civil, tamb?m pela Uerj

Carreira
Atuou por 18 anos no Minist?rio P?blico do Rio. Foi juiz em para Niter?i (RJ). Passou a desembargador do TJ-RJ em 1997 e, em 2001, foi nomeado pelo ent?o presidente FHC para o STJ. Est? no Supremo desde 2011, indicado por Dilma

Tags: AVAL Naquele último - Luiz Fux

Fonte: folha.com  |  Publicado por: Da Redação
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