Piaui em Pauta

Ex-borracheiro estuda com 200 kg de resumos por 4 anos e vira juiz no DF.

Publicada em 06 de Maio de 2015 às 09h09


O juiz federal Rolando Valcir Spanholo O juiz federal Rolando Valcir Spanholo ?O rec?m-empossado juiz federal Rolando Valcir Spanholo, de 38 anos, afirma que disciplina e motiva??o foram a receita que o levaram a romper com a antiga realidade de borracheiro e alcan?ar o sonho de ser magistrado em Bras?lia. Os ?ltimos quatro anos foram dedicados a concursos p?blicos, nos quais ele acumulou 200 quilos de resumos de disciplinas de direito. O advogado ? de Sananduva, no Rio Grande do Sul, e foi aprovado na mesma sele??o feita pela miss DF Alessandra Baldini.

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O juiz Rolando Valcir Spanholo, durante cerim?nia de posse no Tribunal Regional Federal, em Bras?lia
(Foto: Tribunal Regional Federal/Divulga??o)


Spanholo conta que a ideia de virar juiz veio tarde, j? no final da faculdade e por influ?ncia de um professor. At? ent?o o objetivo dele era apenas “melhorar de vida”. A gradua??o, de acordo com o juiz, j? parecia uma grande supera??o para ele e os quatro irm?os, que trocavam de roupa e sapatos entre si para n?o irem todos os dias vestidos do mesmo jeito para a institui??o.
O trabalho come?ou cedo. Entre os 9 anos e os 15 anos, os cinco consertavam pneus e lavavam carros junto com o pai. “Durante o inverno, as m?os e os p?s ficavam quase sempre congelados. N?o t?nhamos luvas de borracha e outros equipamentos de prote??o que hoje s?o comuns e obrigat?rios. S? restava fazer muito fogo para se aquecer, mas, com isso, os choques t?rmicos eram inevit?veis. Viv?amos com fissuras nas m?os e p?s."


Rolando Valcir Spanholo lava carros junto com os irm?os durante a adolesc?ncia em cidade do interior do Rio Grande do Sul (Foto: Rolando Valcir Spanholo/Arquivo Pessoal)

O magistrado diz que a condi??o levava a fam?lia a ser muito severa em rela??o ? educa??o e a acreditar que s? assim todos teriam melhores oportunidades. O esfor?ou coletivo ajudou os cinco irm?os a ingressarem em uma faculdade de direito que ficava a 250 quil?metros de casa. Para pagar os estudos, os irm?os tiveram de aprender a costurar cortinas e edredons e a fazer bordados.

Depois, com a chegada da habilita??o para dirigir, tamb?m passei a trabalhar na ?rea de vendas. Era um desafio di?rio. Sa?a sempre cedinho, rodava o dia todo, batendo de porta em porta pelos munic?pios da regi?o, oferecendo nossos produtos diretamente nas casas. Por raz?es de economia, meu almo?o era sempre debaixo da sombra de uma ?rvore, dentro do carro. Card?pio? Algumas fatias de p?o caseiro e um peda?o de frango empanado – e frio – ou uma torrada carinhosamente preparados pela minha m?e. Bebida? ?gua que levava dentro de um litro [de garrafa] pet”, lembra.
Spanholo voltava para casa no final da tarde para pegar o ?nibus para ir ? faculdade. Muitas vezes, por causa da dist?ncia, n?o conseguia tomar banho antes das aulas. As faltas tamb?m eram frequentes por causa do trabalho e aconteciam em m?dia duas vezes por semana. Como consequ?ncia, ele ficou de exame nos dez semestres do curso.
"Na verdade s? consegui levar adiante a gradua??o porque meus colegas conheciam minha realidade e sempre me emprestavam os cadernos para copiar ou tirar xerox das suas anota?es. Confesso que, durante a gradua??o, estudei muito pouco por livros de doutrina, n?o tinha como”, explica. “Ali?s, meu 'hor?rio de estudos' era no ?nibus, durante as viagens de ida e volta, e aos domingos – os s?bados eu usava para fazer vendas nas cidades mais distantes. A necessidade faz a gente se reinventar."

Sem familiares e conhecidos na ?rea, Spanholo afirma que s? fez a sele??o para a Escola Superior da Magistratura, aos 22 anos, por insist?ncia de um professor. A institui??o fica em Porto Alegre e oferece cursos de prepara??o e de aperfei?oamento para interessados na ?rea. A aprova??o foi uma surpresa, e o jovem precisou se desdobrar entre trabalhar em escrit?rios aos finais de semana enquanto passava de segunda a sexta estudando a 400 quil?metros de casa.
Ao fim do curso e j? casado, o juiz deu in?cio ? primeira das duas "temporadas" de concursos p?blicos. Ele conta que chegou perto da aprova??o para promotor, procurador, juiz do trabalho e juiz estadual entre 1999 e 2003, mas precisou desistir dos certames porque a mulher havia acabado de ganhar beb?.
"T?nhamos o filho pequeno, e, em uma decis?o muito dif?cil, conjuntamente optamos por ‘adiar’ meu sonho de ser magistrado. Em 2010, decidi retomar tal sonho, mas agora na ?rea federal. Sofri muito para refazer a base do conhecimento que perdi durante aquela ‘parada t?cnica’. Levei um bom tempo para voltar a atingir um ‘n?vel competitivo’. Reprovei em muitos concursos. Ali?s, de tanto ficar no ‘quase’, acabei ficando ‘especialista’ em calcular e antecipar as notas de cortes das provas objetivas dos nossos concursos”, brinca Spanholo.

Foram dezenas de sele?es desde ent?o. Para se preparar, o magistrado passou a estudar a vida de pessoas que j? haviam alcan?ado aprova??o no concurso que ele queria. Ele lembra que identificou o que havia de comum, em rela??o a estrat?gias e m?todos de estudos, para tra?ar o plano de como se prepararia.
“Logo percebi que, por conta das minhas limita?es – tempo, lugar, idade —, muitas delas eu n?o conseguiria executar, como frequentar cursos preparat?rios, estudar por ‘doutrina pesada’ etc. Sentia que precisava ariscar estrat?gias pr?prias, moldadas na minha realidade. Experimentei v?rias. Umas deram certo, outras nem tanto”, diz.
Spanholo afirma que surgiu ent?o a ideia de come?ar a fazer resumos das mat?rias e de grifar as principais leis para voltar a ter uma no??o das principais ?reas do direito. Depois, passou a estudar com base em provas antigas. Ele tamb?m fez sinopses de informativos dos tribunais superiores e usou a internet para pesquisas. Ao final, juntou mais de 200 quilos – em 34 caixas – de material de estudo. O acervo foi encaminhado para reciclagem.


O juiz federal Rolando Valcir Spanholo junto a parte dos 200 quilos de resumos que usou para estudar na prepara??o do concurso (Foto: Rolando Valcir Spanholo/Arquivo Pessoal)

Para suportar a press?o e o esgotamento emocional, o juiz conta que tamb?m via v?deos motivacionais em redes sociais. Ele lembra que a prepara??o o ajudou a manter a tranquilidade no dia da prova oral, depois de passar quase seis horas trancado em uma sala de confinamento para ser testado por cinco pessoas sobre conhecimentos em todos os ramos do direito.


“Naquele momento um filme da vida passa na cabe?a da gente. Sem me abalar, em fra??o de segundos, lembrei-me de cada fase, dos meus pais e familiares, das priva?es, das quedas, enfim, de tudo que tinha se passado ao longo dos 38 anos de minha exist?ncia”, conta. “Entrei naquele recinto pronto para ‘lutar’ por mim e por todas as pessoas que, de uma forma ou de outra, acabaram me ajudando a chegar naquele lugar. N?o podia decepcion?-los.”
O resultado do certame para o Tribunal Regional Federal saiu em novembro de 2014, e Spanholo ficou entre os 60 primeiros classificados. Surpreso com a boa coloca??o, ele se diz orgulhoso da trajet?ria e atribui o resultado ao esfor?o e ajuda dos familiares e amigos.
“A vida sempre me ensinou que dificuldades existem para serem superadas. Ali?s, dificuldades todos t?m. Uns mais, outros menos, mas todos enfrentam obst?culos para alcan?ar seus sonhos. O que diferencia as pessoas ? exatamente a forma como elas reagem diante das resist?ncias do cotidiano. Uns se acovardam e se deixam dominar. Outros veem nas dificuldades grandes oportunidades de crescimento, de evolu??o pessoal”, afirma.
“No meu caso, desde crian?a, sempre precisei acreditar naquilo que para os outros seria motivo de d?vida. Nada nunca chegou f?cil. Por necessidade, treinei minha mente para acreditar que com humildade, disciplina e motiva??o era poss?vel vencer um a um os desafios da vida, mesmo n?o dispondo das melhores condi?es para enfrent?-los. Sempre fui ? luta. Nunca esperei que os outros viessem me dizer o que eu poderia e o que eu n?o poderia ser. Definia meus objetivos e passava a identificar o que precisava ser feito para atingi-los”, completou o juiz.

Dizendo-se avesso a publicizar a pr?pria hist?ria, Spanholo conta que tem se espantado com a quantidade de pessoas que diariamente o procuram para falar que ele as inspirou. Segundo o magistrado, os relatos extrapolam o mundo dos concursos p?blicos e t?m rela??o at? mesmo com a vida privada de algumas delas.
“N?o sei explicar direito, mas ? como se as pessoas precisassem ver diante dos seus pr?prios olhos uma prova de que tamb?m elas podem superar seus limites pessoais e alcan?ar os seus sonhos”, declara. “Procuro sempre mostrar para elas que, de fato, se um ex-borracheiro e ex-lavador de carros conseguiu, ? porque qualquer outro tamb?m poder? ser juiz federal ou que quiser ser na vida. Basta ter disciplina, persist?ncia, esp?rito de supera??o e, principalmente, acreditar no nosso pr?prio potencial.”


Tags: Ex-borracheiro estud - O recém-empossado

Fonte: globo  |  Publicado por: Da Redação
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