Piaui em Pauta

Jean Wyllys decide não tomar posse para novo mandato em razão de ameaças.

Publicada em 25 de Janeiro de 2019 às 07h27


A assessoria do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) informou nesta quinta-feira (24) que o parlamentar n?o tomar? posse para o novo mandato.

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Ao G1, a assessoria de Jean Wyllys informou que ele tem recebido amea?as e, por isso, decidiu n?o assumir o terceiro mandato parlamentar. A posse dos deputados federais eleitos est? marcada para 1? de fevereiro. Jean Wyllys recebeu 24.295 votos na elei??o de outubro.

>> Leia ao final desta reportagem uma carta de Jean Wyllys sobre a decis?o

Em uma rede social, Jean Wyllys publicou nesta quarta: "Preservar a vida amea?ada ? tamb?m uma estrat?gia da luta por dias melhores. Fizemos muito pelo bem comum. E faremos muito mais quando chegar o novo tempo, n?o importa que fa?amos por outros meios! Obrigado a todas e todos voc?s, de todo cora??o. Ax?!"

Homossexual assumido, Jean Wyllys tinha como principais bandeiras pautas relacionadas ?s causas LGBT e para minorias.

De acordo com a Secretaria-Geral da C?mara, o suplente de Jean Wyllys ? o vereador carioca David Miranda (PSOL-RJ).

Mais cedo, nesta quinta, Jean Wyllys concedeu entrevista ao jornal "Folha de S.Paulo" na qual informou que est? no exterior e n?o pretende voltar ao Brasil. Na entrevista, o deputado diz que tem sofrido amea?as de morte.


"O [ex-presidente do Uruguai] Pepe Mujica, quando soube que eu estava amea?ado de morte, falou para mim: 'Rapaz, se cuide. Os m?rtires n?o s?o her?is'. E ? isso: eu n?o quero me sacrificar", disse Jean Wyllys ? "Folha".

Ainda ao jornal, Jean Wyllys disse que o PSOL, partido ao qual ? filiado, reconhece que ele se tornou um "alvo" e apoiou a decis?o dele de n?o retornar ao Brasil.

Ao G1, a assessoria de Jean Wyllys afirmou que h? uma campanha "muito pesada" contra o deputado, que dissemina conte?do falso sobre ele na internet o associando, por exemplo, ? pedofilia, ao casamento de adultos com crian?as e ? mudan?a de sexo de crian?as.

Assassinato de Marielle
De acordo com a assessoria de Jean Wyllys, o volume de amea?as contra o deputado aumentou ap?s o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), em mar?o do ano passado.

Ainda segundo a assessoria, desde ent?o, o parlamentar precisava andar de carro blindado e com escolta de seguran?as armados.

"Aumentou a situa??o de viol?ncia, de seguidores do atual presidente [Jair Bolsonaro] que fazem todo tipo de xingamento e amea?as nas redes sociais. Isso criou uma situa??o cada vez mais dif?cil. Antes do assassinato da Marielle, ele j? vinha recebendo amea?as muito pesadas, inclusive direcionadas n?o s? a ele, mas tamb?m ? fam?lia. E-mails falando endere?o da m?e, endere?o da irm?, da fam?lia", informou.


De acordo com a assessoria, Jean Wyllys est? no exterior, mas o local n?o ser? informado por quest?o de seguran?a.

Situa??o 'muito grave' do pa?s
? TV Globo, o presidente do PSOL, Juliano Medeiros, afirmou que a situa??o do pa?s ? "muito grave".

"A situa??o do pa?s ? realmente muito grave, e a gente tem defendido que a resist?ncia democr?tica no pa?s ? necess?ria. O Jean era e ainda ? uma nesse processo de resist?ncia democr?tica”, afirmou o presidente do PSOL. "A decis?o dele ? de car?ter pessoal", acrescentou.

Juliano disse lamentar a decis?o de Jean Wyllys porque o partido preferia que ele continuasse na bancada. Mas ressaltou que o partido compreende e se solidariza com o deputado

Relembre a passagem de Jean Wyllys pela C?mara
Na C?mara dos Deputados, Wyllys era alvo constante de provoca?es por parte dos colegas parlamentares e, durante as sess?es no plen?rio e nas comiss?es, chegou a bater boca diversas vezes com advers?rios.

O epis?dio mais pol?mico ocorreu durante a vota??o da abertura do processo de impeachment da ent?o presidente Dilma Rousseff, em 2016. Wyllys cuspiu no ent?o deputado Jair Bolsonaro e foi punido pelo Conselho de ?tica da C?mara com uma censura escrita.

? ?poca, Jean Wyllys disse ao jornal "O Globo" que havia cuspido em Bolsonaro porque, ap?s votar contra o prosseguimento do impeachment, Bolsonaro o insultou.


Depois da decis?o do Conselho de ?tica, Wyllys soltou nota em que afirmava que cuspiu porque teve "uma rea??o espont?nea, humana, contra os xingamentos e agress?es que h? anos" recebia na C?mara em raz?o da sua orienta??o sexual e posi?es pol?ticas. "O grau de viol?ncia, desrespeito e ofensas que recebo desde que estou deputado ? intoler?vel", dizia a nota.

O mesmo fato gerou outras duas representa?es do PT no Conselho de ?tica, contra o deputado Eduardo Bolsonaro (PSC-SP).

A primeira representa??o acusava Eduardo Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro de ter revidado o cuspe dado em seu pai ao cuspir de volta em Jean Wyllys. A segunda dizia que ele havia editado e divulgado um v?deo que dava a entender que o deputado do PSOL havia premeditado o cuspe e n?o que tivesse sido uma rea??o. Ambos os processos acabaram arquivados.

Carta
Leia a carta de Jean Wyllys ao PSOL:

? Executiva do Partido Socialismo e Liberdade - PSol

Queridas companheiras e queridos companheiros,

Dirijo-me hoje a voc?s, com dor e profundo pesar no cora??o, para comunicar-lhes que n?o tomarei posse no cargo de deputado federal para o qual fui eleito no ano passado.

Comuniquei o fato, no in?cio desta semana, ao presidente do nosso partido, Juliano Medeiros, e tamb?m ao l?der de nossa bancada, deputado Ivan Valente.

Tenho orgulho de compor as fileiras do PSol, ao lado de todas e todos voc?s, na luta incans?vel por um mundo mais justo, igualit?rio e livre de preconceitos.

Tenho consci?ncia do legado que estou deixando ao partido e ao Brasil, especialmente no que diz respeito ?s chamadas “pautas identit?rias” (na verdade, as reivindica?es de minorias sociais, sexuais e ?tnicas por cidadania plena e estima social) e de vanguarda, que est?o contidas nos projetos que apresentei e nas bandeiras que defendo; conto com voc?s para darem continuidade a essa luta no Parlamento.


N?o deixo o cargo de maneira irrefletida. Foi decis?o pensada, ponderada, por?m sofrida, dif?cil. Mas o fato ? que eu cheguei ao meu limite. Minha vida est?, h? muito tempo, pela metade; quebrada, por conta das amea?as de morte e da pesada difama??o que sofro desde o primeiro mandato e que se intensificaram nos ?ltimos tr?s anos, notadamente no ano passado. Por conta delas, deixei de fazer as coisas simples e comuns que qualquer um de voc?s pode fazer com tranquilidade. Vivo sob escolta h? quase um ano. Praticamente s? sa?a de casa para ir a agendas de trabalho e aeroportos. Afinal, como n?o se sentir constrangido de ir escoltado ? praia ou a uma festa? Preferia n?o ir, me resignando ? solid?o dom?stica. Aos amigos, costumava dizer que estava em c?rcere privado ou pris?o domiciliar sem ter cometido nenhum crime.

Todo esse horror tamb?m afetou muito a minha fam?lia, de quem sou arrimo. As amea?as se estenderam tamb?m a meus irm?os, irm?s e ? minha m?e. E n?o posso nem devo mant?-los em situa??o de risco; da mesma forma, tenho obriga??o de preservar minha vida.

Ressalto que at? a imprensa mais reacion?ria reconheceu, no ano passado, que sou a personalidade p?blica mais v?tima de fake news no pa?s. S?o mentiras e cal?nias frequentes e abundantes que objetivam me destruir como homem p?blico e tamb?m como ser humano. Mais: mesmo diante da Medida Cautelar que me foi concedida pela Comiss?o Interamericana de Direitos Humanos, da OEA, reconhecendo que estou sob risco iminente de morte, o Estado brasileiro se calou; no recurso, n?o chegou a dizer sequer que sofro preconceito, e colocaram a palavra homofobia entre aspas, como se a homofobia que mata centenas de LGBTs no Brasil por ano fosse uma inven??o minha. Da pol?cia federal brasileira, para os in?meros protocolos de den?ncias que fiz, recebi o sil?ncio.


Esta semana, em que tive convic??o de que n?o poderia - para minha sa?de f?sica e emocional e de minha fam?lia - continuar a viver de maneira prec?ria e pela metade, foi a semana em que not?cias come?aram a desnudar o planejamento cruel e inaceit?vel da brutal execu??o de nossa companheira e minha amiga Marielle Franco. Vejam, companheiras e companheiros, estamos falando de sic?rios que vivem no Rio de Janeiro, estado onde moro, que assassinaram uma companheira de lutas, e que mant?m liga?es estreitas com pessoas que se op?em publicamente ?s minhas bandeiras e at? mesmo ? pr?pria exist?ncia de pessoas LGBT. Exemplo disso foi o aumento, nos ?ltimos meses, do ?ndice de assassinatos de pessoas LGBTs no Brasil.

Portanto, volto a dizer, essa decis?o dolorosa e dific?lima visa ? preserva??o de minha vida. O Brasil nunca foi terra segura para LGBTs nem para os defensores de direitos humanos, e agora o cen?rio piorou muito. Quero reencontrar a tranquilidade que est? numa vida sem as palavras medo, risco, amea?a, cal?nias, insultos, inseguran?a. Redescobri essa vida no recesso parlamentar, fora do pa?s. E estou certo de preciso disso por mais tempo, para continuar vivo e me fortalecer. Deixar de tomar posse; deixar o Parlamento para n?o ter que estar sob amea?as de morte e difama??o n?o significa abandonar as minhas convic?es nem deixar o lado certo da hist?ria. Significa apenas a op??o por viver por inteiro para me entregar as essas convic?es por inteiro em outro momento e de outra forma.

Diz a can??o que cada ser, em si, carrega o dom de ser capaz e ser feliz. Estou indo em busca de um lugar para exercitar esse dom novamente, pois a?, sob esse clima, j? n?o era mais poss?vel.

Agrade?o ao Juliano e ao Ivan pelas palavras de apoio e outorgo ao nosso presidente a tarefa de tratar de toda a tramita??o burocr?tica que se far? necess?ria.


Despe?o-me de voc?s com meu abra?o forte, um salve aos que est?o chegando no Legislativo agora e ? milit?ncia do partido, um beijo nos que conviveram comigo na C?mara, mais um abra?o fort?ssimo nos meus assessores e assessoras queridas, sem os quais n?o haveria mandato, esperando que a vida nos coloque juntos novamente um dia. At? um dia!

Jean Wyllys

23 de janeiro de 2019

JEAN WYLLYS
Tags: Jean Wyllys decide - A assessoria

Fonte: globo  |  Publicado por: Da Redação
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