
?Uma zeladora de 32 anos foi autuada em flagrante ap?s ser filmada por c?meras comendo um chocolate do delegado da Pol?cia Federal Agostinho Cascardo, que teria entendido se tratar de furto qualificado. O produto estava em uma caixa sobre uma mesa na sala dele. Ela diz ter assinado ainda um documento sobre a apreens?o da embalagem do bombom, que serviria como 'prova do crime'.
A mulher trabalha para uma empresa terceirizada que presta servi?o ? Pol?cia Federal. O caso ocorreu na quinta-feira (30) e foi divulgado no domingo (4). Em entrevista ao G1 nesta segunda-feira (5), a zeladora admitiu ter comido o chocolate que estava em cima da mesa do delegado quando ele estava ausente.
A assessoria de comunica??o da Pol?cia Federal em Roraima admitiu que a mulher foi autuada em flagrante por furto e o caso enviado ao Minist?rio P?blico Federal (MPF). Agostinho Cascardo tamb?m ? corregedor da PF.
"Estava limpando a sala dele e tinha uma caixinha cheia de bombons sobre a mesa. Peguei um e pensei comigo mesma: depois falo para ele, porque n?o vai 'fazer quest?o' de um bombom. Comi o chocolate na sala. Terminei a limpeza e sa?. N?o sei porque comi. N?o tenho o costume de pegar 'coisas' dos outros, nunca mexi em nada. N?o ? porque uma pessoa ? de uma fam?lia pobre que ela vai sair pegando as coisas dos outros ", relata.
A zeladora conta ter sa?do do pr?dio da Pol?cia Federal para resolver problemas pessoais e, ao retornar, foi abordada por um escriv?o, que a chamou para ser ouvida. "N?o sabia porque estavam me chamando. De qualquer forma, assinei dois documentos que ele me entregou, at? pedi uma c?pia, mas ele n?o me deu", afirma.
Ao ser levada ? sala do delegado Cascardo, a zeladora foi questionada sobre o bombom que estava na mesa. "Eu admiti ter comido. Me questionou onde estava a embalagem e o levei at? a lixeira. Revirei o lixo e encontrei o papel do bombom. Me ofereci para pagar o chocolate, mas o delegado disse que n?o era essa a quest?o. Ele disse que assim como eu tinha pegado o bombom, poderia ter sido um documento. Jamais pegaria", sustenta.
Ao entregar a embalagem, ela viu o material sendo embrulhado como 'prova de um crime'. "Ainda tive que assinar um documento sobre a apreens?o da embalagem e prestei depoimento por quase uma hora. Na minha opini?o, o corregedor deveria primeiro ter me procurado,em vez de mandar outros policiais atr?s de mim. Ele se precipitou ainda ter colocado c?meras na sala por desconfiar de mim", opina.
A zeladora foi ? empresa onde trabalha e ficou sabendo que um servidor da PF havia ligado para a propriet?ria pedindo a demiss?o dela por justa causa.
"Falaram que eu estava roubando a Pol?cia Federal. A minha patroa contou que durante o telefonema esse servidor chegou a afirmar que eu deveria ter sa?do do pr?dio algemada e direto para a penitenci?ria ", resume. "Eu tenho quatro filhos pequenos, posso perder meu emprego, ficar com o meu nome sujo. Como ? que as pessoas v?o me ver agora? Estou constrangida, envergonhada", assume.
A zeladora adiantou que vai procurar um advogado para saber o que pode fazer sobre o caso. "Quero saber se o que fiz foi errado, porque eu nem sequer tive a chance de me defender. Sei que estou abaixo dele [corregedor], mas queria conversar e entender porque ele fez tudo isso comigo", conclui.
OAB considera abuso de poder
Para o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil em Roraima (OAB-RR), Jorge Fraxe, a a??o do corregedor foi 'desproporcional' e pode ser classificada como abuso de poder. Para ele, o delegado errou em usar a estrutura da Pol?cia Federal para 'resolver um problema pessoal'.
"Se ele tivesse se sentido lesado, a apura??o teria de ser feita no ?mbito da Pol?cia Civil, porque a zeladora n?o ? servidora da Pol?cia Federal e n?o tem foro especial. Agora, ele usar a estrutura da PF, que serve para investigar desvios de condutas da pr?pria institui??o, contra essa mo?a ? um absurdo, ? desproporcional e desnecess?rio", avalia.
Fraxe avaliou que o ato da zeladora n?o pode ser classificado como crime e nem enquadrado como furto qualificado, 'porque n?o afetou a esfera de direito de ningu?m, n?o feriu o patrim?nio do corregedor e n?o teve nenhuma tipifica??o de crime'. "Nenhum juiz classifica isso dessa maneira. ? um desvio de conduta m?nimo", declara.
O presidente disse ainda que a servidora deve procurar a Comiss?o de Direitos Humanos da OAB-RR para registrar o ocorrido. "O caso precisa ser avaliado, ela tem que buscar um advogado para se proteger", diz.
Assessoria da PF admite furto
Segundo a assessoria de comunica??o da Pol?cia Federal, houve 'algumas situa?es' no local onde ocorreu o caso envolvendo a zeladora e, por esse motivo, foram colocadas c?meras para monitorar o ambiente. Ainda conforme a assessoria, as imagens flagaram a zeladora 'furtando' o chocolate na sala do delegado Agostinho Cascardo.
A comunica??o da PF afirma que foi feita uma 'not?cia crime' e a demiss?o da mulher se deu por justa causa.
"No ?mbito penal, esse fato j? foi arquivado no mesmo dia porque ? um crime de 'valor irris?rio'. Foi pontuado o ato em si. N?o houve pris?o ou per?cia. Foi feita apenas 'not?cia crime', sendo autuada em flagrante por furto. O procedimento se deu na PF porque o fato ocorreu em um pr?dio da Uni?o. Talvez ela seja absolvida na Justi?a Federal pelo crime", diz a assessoria.
O G1 tentou localizar a supervisora da zeladora para se pronunciar sobre o caso, mas as liga?es n?o foram atendidas. Por telefone, o delegado Agostinho Cascardo disse que n?o iria tratar do assunto com a reportagem, o que ocorreria somente atrav?s da pr?pria assessoria de comunica??o da PF.